A Vulnerabilidade dos Corpos
por Katia Canton (2008)
Entrevista do artista a
Maria Alice Milliet (2004)
O Avesso do Coração Catálogo Banco do Brasil
Insensato Coração
Catálogo Banco do Brasil |
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Insensato Coração
Entre a claridade implacável de uma lâmpada e a vertigem do vazio que a brancura do papel encerra, estanca o coração. Quantas vezes esse estado de suspensão, de impasse, aprofunda a solidão do artista. Por um ano, Hildebrando vive a certeza de uma etapa concluída e a expectativa de um acontecimento iminente. Quer recomeçar, acende a luz e estende uma grande folha branca sobre a mesa e quando retornam os cenários e os personagens que habitam suas obras anteriores, recusa acolhê-los no papel. Convive por muito tempo com a luminosidade da superfície deserta até que vê este fundo ausente como o lugar da criação. Os enredos, as poses, os espaços confinados desaparecem e uma única imagem se impõe, a princípio timidamente, depois fatal: o coração. Não mais o coração eucarístico, estereótipo da religiosidade, presente em alguns quadros seus, mas um órgão vivo, pulsante, livre de toda narrativa.
O suporte branco funciona como lâmina de vidro em laboratório, o desenho obedece ao rigor da dissecação científica, porém, nada evita a contusão do branco ferido pelo vermelho. Mácula indelével, arroxeada, macerada sobre a alvura do papel.
É difícil não reconhecer na obra de Hildebrando de Castro a pulsão da morte mais além do princípio do prazer. Desde suas figuras mórbidas – de1986 ao começo de 94 – imobilizadas em quadros como num museu de cera onde o erotismo sugerido pela nudez dos corpos, por situações incestuosas, por posturas provocantes, é bloqueado. Uma aura de mórbido inibe o estímulo erótico. O espectador não senti a excitação do “voyer”, mas o distanciamento de quem observa borboletas espetadas no fundo de caixas de vidro.
Nos trabalhos recentes o artista adota procedimento semelhante ao da fase anterior: fica frio e opera com precisão. Atento aos detalhes, seleciona, compra corações de frango, fotografa e depois doa a quem gosta de comê-los. Com técnica apurada, resultado de auto-didatismo, reproduz o objeto observado (não recorre à projeção da fotografia sobre o suporte) dando consistência à imagem pelo depósito sobre o papel de matéria tão fugaz, o pastel seco. Uma qualidade virtuosística impregna esse fazer, uma perfeição que sai dos dedos do artista, desgastados pela fricção do pó sobre a folha. Encontrado o tema, Hildebrando trabalha obsessivamente.
Uma viagem ao interior em busca do essencial. Conceitualmente, o processo é de redução, explícita no abandono da metáfora pela metonímia, ou seja, o todo substituído pela parte. Quando pintou seus pés como os do crucificado ensaiava o recorte. Formalmente, a depuração fica evidente na abordagem cerebral da composição articulada em torno de variações sobre um mesmo elemento. O Coração, signo emblemático por excelência, surge em toda sua carnalidade, sem os atenuantes da estilização, e por isso choca. Na arte contemporânea, sepois de tantas rupturas e instaurado o vale-tudo, ficou quase impossível encontrar algo chocante. Paradoxalmente, nesta série de Hildebrando, é a técnica tradicional do pastel que contribui para enfatizar o poder inconteste do signo icônico.
Logo a ilustração publicitária vem à cabeça, pois é nesta atividade que a imagem, com freqüência, aparece ampliada, retórica, congelada. A convivência de Hildebrando com o meio publicitário vem de longa data, com a prestação de serviços de programação visual, nunca de ilustrador. Diria que sua arte é de extração pop ou seja, faz um pop perverso e pervertido. Olhando os quadros, de repente me ocorreu que os corações parecem cones de sorvete com cobertura, o que vira o estomago e torna inocentes os hamburguers de Oldenburg. Como em Warhol – penso especialmente em Marlyn Monroe’s Lips (1962) – a figura destacada de seu contexto natural e posta sobre um fundo neutro causa mal-estar.
O coração agitando, os amontoados, os corações trespassados expostos como natureza-morta, sucitam o sentimento de que o tema é inadequado a uma exposição de arte. Mesmo sabendo que os órgãos retratados são de animais, a associação com o coração humano é inevitável. E como são diversos e individualizados, nas veias, na quantidade de gordura aderida, nas protuberâncias. O desconforto, até a repulsa acomete o observador. Entretanto, superado o primeiro impacto, aflora o simbólico, não menos inquietante. O coração atravessado pela seta do cupido, o sacrificado em ritual: Eros e Thanatos sempre associados. Do coraçãozinho espetado para o churrasco ao pesadelo antropofágico de corpos retalhados, repugnantes e apetitosos que assombra o gosto civilizado. O peso da carga simbólica sobrecarrega o próprio coração.
Tronco. Começa aí um outro discurso que conecta o natural ao artificial. O corpo desmembrado. Lembro a atitude comum nas crianças de desmontar o brinquedo, mesmo o mais querido, e na vida adulta a fetichização, a objetualização do ser humano. Em qualquer dos quadros, o nada onde flutuam os significantes mantém em suspenso os significados e simultaneamente abre para toda significação. Estamos diante de uma explosão controlada, ainda assim reveladora da insensatez que nos rege.
Maria Alice Milliet
Abril de 1995
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